TODOS PERDEM
Estava sentado em uma cadeira azul, com pernas razoavelmente tortas quando veio a notícia que ele tinha falecido. Falecido, falecer, sim, falecer é morrer, então ele tinha morrido. Morrer, velar, enterrar, nunca mais ver o corpo.
O corpo, a voz e o andar de uma pessoa faz com que ela seja amada, se fosse uma lembrança, uma saudade, se apagaria no tempo, mas não, no caso, eram 20 anos de corpo, de falas, de andar, não esqueceria nunca.
Precisava levantar da cadeira, chorar, me desesperar e ainda fazer aquelas perguntas, que ninguém sabe responder, mas que sempre acham palavras, constrangidas, mas de consolo para amenizar a dor.
Nada explica um sentimento desses, mesmo para quem nunca sentiu, tenho a certeza que lhe faz tremer as pernas só de pensar em perder assim. Já é quase insuportável perder o emprego, perder a namorada, imagine perder, pra sempre, alguém que amamos. Justo falar que ele se perdeu de nós, nós continuamos aqui e ele que se foi. Agora pode estar queimando no fogo do inferno ou olhando por nós, sentado em alguma nuvem, ajudando Deus a dar comida para cãezinhos famintos, pois cães tenho certeza que ficam do lado de Deus ou até mesmo, vagando pelas ruas da cidade e entrando nas casas sem pedir licença.
Explicação não tenho, nem você que agora chega mais perto para me olhar com a pena espantada no rosto, nem o teu abraço e teus olhos cheios de lágrimas vão explicar a situação ou fazer ele voltar. Um dia iria acontecer.
Tenho que levantar da cadeira, temos um velório para fazer, escolher a estampa do caixão, as flores e ficar lá olhando ele dormir e notar que aos poucos ele vai ficando diferente, hora de jogar terra nele. Não me toque nessa hora, vocês que olham de fora nunca vão dizer sinceramente o quanto sentem, pois não sentem, quem sente sou eu que ainda permaneço na cadeira azul com pernas razoavelmente tortas... passaram segundos.
- Postado por: Pati Barbie às 10h48
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